30 agosto 2010

Irã - Relatos de uma viagem desconhecida

Capitulo 2: Desmistificando o Irã


São Paulo – Madrid – Istambul - Teerã. No aeroporto de Istambul, senti que a experiência tinha começado. Várias mulheres totalmente cobertas, homens ajoelhados no chão rezando em direção a Meca, um cheirinho de um povo que não curte muito tomar banho... e várias pessoas que pareciam parentes do Sadam Hussein!
Chegamos ao Ramtin hotel e o primeiro mito a ser desmistificado – nada de pedir a certidão de casamento. O hotel tem ótimas instalações, quartos enormes, internet funcionando super bem, apesar dos sites bloqueados como o facebook, globo.com. Fomos conhecer o primeiro ponto turístico, e-Mellat Park, após 4km de caminhada. Apesar de longo, foi bem divertido, pois começamos a entender onde estávamos. De uma forma geral, Teerã é muita parecida com São Paulo. A cidade nos surpreendeu, é bonitinha, limpa, bem cuidada, com prédios modernos. Bem diferente do que eu tinha na cabeça.
É claro que cada um quem vem ao Irã ou vai para qualquer outro país, tem uma experiência diferente da minha, mas quero relatar aqui as descobertas que eu fiz de um país o qual eu era totalmente leiga e acreditava que era só aquilo que eu via no Jornal Nacional.
O melhor do Irã, sem dúvida alguma, são as pessoas. Elas são muito agradáveis, divertidas, simpáticas, honestas, receptivas e dispostas a ajudar. Com exceção do “honestas”, são muito similares aos brasileiros. Enquanto ainda estávamos planejando a viagem, trocamos e-mails com uns amigos iranianos que nunca tínhamos conhecido pessoalmente. Eles não só nos deram todas as dicas, como fizeram questão de nos levar na agencia de turismo em Teerã para negociar os melhores preços. Convidaram-nos para um jantar na casa deles, com comidas e bebidas típicas. Dentro de casa, as mulheres podem se vestir normalmente, com braços, pernas e cabelos a mostra. Nossa guia nos deu um cd música persa, e nosso outro guia nos deu um punhado de uvas típicas. Os taxistas adoram saber de onde viemos e, como todos os homens, adoram futebol e conhecem vários jogadores brasileiros. Esse era sempre o primeiro assunto que puxávamos no taxi, com ajuda do nosso Phrasebook em Farsi, do Lonely Planet.
As mulheres iranianas são muito bonitas. Como elas somente podem mostrar o rosto, capricham na maquiagem e nos acessórios. Uma curiosidade é que o Irã é o país com o maior número de mulheres que fazem plásticas no nariz e tatuagem na sobrancelha. Em relação às roupas, as mulheres que não usam o “chador”, usam uma roupa que se chama “manteau”, que é um vestido até o joelho, de linho ou sarja, que pode variar bastante o modelo e a cor, mas sempre com uma calça por baixo. As mulheres que optam por usar o chador geralmente são as mais velhas, mais conservadoras, ou cuja família segue essa tradição. As usuárias de manteau capricham no lenço para se diferenciar, podendo ser liso, colorido ou estampado. Esse lance do lenço é curioso. Cobrir o cabelo é uma regra imposta pelo Governo, mas as mulheres buscaram um jeito de não cumprir a regra por inteiro. Elas fazem um coque bem alto e volumoso na cabeça, e isso faz com que o lenço fique da metade da cabeça para trás, sem cair, deixando as madeixas e franjas aparecerem... Elas podem ser bastante sensuais.
Os homens são super fashion, estilo anos 80. Vestem-se basicamente com camisa manga curta justinha, lisa ou estampada, e calça social justinha com uma leve abertura nas pernas. Outra opção é a calça jeans mega justa, no estilo John Travolta em “Embalos de Sábado a Noite”.
O transito é crazy! As motos andam na calçada, mesmo na contramão. Os faróis não têm uma razão de existir, pois ninguém respeita. Dar ré também é comum. Pegamos um taxista que para nos deixar no hotel deu ré a 50km por hora, por 2 quarteirões, numa avenida super movimentada da cidade. A galera toda buzinando e ele não estava nem aí... Muita emoção. Outra vez estávamos no carro de um amigo nosso, parados num cruzamento, quando veio uma moto, bateu na gente, e ainda saiu xingando. Outra coisa comum que pode parecer estranho aos nossos costumes são os taxis compartilhados. Não se surpreenda se você estiver dentro de um taxi e entrar um estranho para pegar uma carona no mesmo sentido.
O hobbie nacional no Irã é o pic nic em parques, ou em qualquer cantinho que tenha um espaço verde. Infelizmente, por ser Ramadan, não tivemos oportunidade de vivenciar isso.
Assim como São Paulo, não acho que Teerã seja o melhor lugar para se fazer turismo. Tem alguns museus legais, torres, parques e bazares (são como a 25 de março, com a mesma lotação de pessoas, bagunça e sujeira. Lá vende-se de tudo, de ralador de queijo, até cabanas de camping e tapetes persas de 15.000 dólares).
A impressão que eu tive, até o momento, é que bomba atômica ou apedrejamento, são assuntos que estão em vigor em qualquer lugar do mundo, menos aqui. Os iranianos não vivem isso, aqui é uma tranqüilidade imensa, as pessoas são felizes, da paz. A pergunta que fica na minha cabeça é: “O quanto a informação que chega até a gente no Brasil ou em outros lugares no mundo é enviesada, e tem por trás um interesse político americano?”

Livia Fukuda

Irã - Relatos de uma viagem desconhecida

Capitulo 1: Definindo o próximo destino



Por que Irã? Essa foi a pergunta que eu mais escutei nos últimos tempos. Dois meses atrás, eu e meu marido decidimos fazer uma viagem diferente. Destino escolhido (por ele): Irã. Amigos e familiares sempre me perguntavam: “Por que Irã?”. Como eu também não estava 100% convencida e ficava perguntando a mesma coisa, deixava para ele responder. Os argumentos são: 1º) ele vai dar uma aula sobre Empreendedorismo em Mercados Emergentes, e a única região que ele ainda não conhecia era o Oriente Médio; 2º) Temos um Mapa Mundi em casa com um stick nos países que já conhecemos e essa região estava muito vazia; 3º) Queríamos conhecer um país islâmico; 4º) Temos um pacto de fazermos viagens exóticas e relativamente “perigosas” antes de termos bebês; 5º) Gostamos de quebrar paradigmas e ficamos intrigados a conhecer o que tem a mais no Irã, além da bomba atômica e apedrejamento, únicas informações que chegam no Brasil e, finalmente 6º) Com ele, eu topo ir para qualquer lugar do mundo, até para o Irã.
Depois de convencida a fazer essa viagem, comecei a fazer uma imersão na cultura do país. Busquei informações em vários meios: internet, revistas (“Carta Capital” teve uma reportagem muito bacana e “Viagem e Turismo” também), TV (programa “Não conta lá em casa”), filmes (“Persépolis” e “Balão Branco”), livros (“O que eu não contei”, da Azar Nafisi – uma das escritoras mais famosas no Ira, “O Irã sob o Chador”, recém lançado, esse livro foi escrito por duas brasileiras jornalistas que viajaram sozinhas para o Ira e o nosso melhor companheiro de viagem, Lonely Planet), e também conversamos com alguns amigos iranianos que moram lá e aqui no Brasil. Fiquei impressionada com o número de informações interessantes que achamos.
Estando munida de tantas informações, comecei a me preparar psicologicamente para a viagem. Descobri um país com uma cultura muito diferente da nossa, principalmente em se tratando do papel da mulher na sociedade. Algumas coisas me deixaram realmente impressionadas no começo. A mulher não pode mostrar o corpo, nem vestir roupas que mostrem a silhueta. A roupa típica é o chador, uma capa preta longa com um lenço de freira na cabeça, também preto. Devem sempre cobrir os cabelos, braços e pernas. Homens e mulheres não podem andar de mãos dadas e a mulher jamais deve tocar um homem ou olhar nos olhos dele, caso contrário, ele achará que você está se insinuando. Existe uma policia, conhecida por sua violência, que fica vigiando as mulheres para garantir o paninho na cabeça e evitar contatos com o sexo oposto. Para dormir no mesmo quarto do hotel, o casal deve apresentar a certidão de casamento. E o pior de todos, num jantar com um casal iraniano, a mulher não deve falar, a não ser que ela seja considerada pelo iraniano um “meio homem”(sabe-se lá o que isso quer dizer!).
Você também deve estar se perguntando “Por que Irã, sua louca?” Na verdade, isso tudo que eu li me deixou bastante curiosa, e comecei a me empolgar. E para deixar a viagem um pouco mais emocionante, no dia seguinte que compramos a passagem aérea, descobrimos que era Ramadan, aquele mês de jejum e rezas intensas, onde os muçulmanos (isso inclui turistas não muçulmanos) não podem comer ou beber qualquer coisa do nascer do Sol até o por do Sol. 7º motivo) Emagrecer!
Tomamos alguns cuidados no planejamento da viagem como levar a certidão de casamento em inglês, reservar hotéis bons e com internet, fazer contatos com amigos iranianos, pesquisar as vestimentas das mulheres na hora de fazer a mala e o principal, levar uma camiseta da seleção brasileira de futebol. Essa é uma carta na manga que sempre usamos e não falha nunca!
Finalmente chegou a hora e de embarcar, e só nos restava torcer para dar tudo certo!

Livia Fukuda